4.5.06

quero-te assim

No outro dia tive vontade de pegar no teu abraço e dizer-te o quanto te quero. Quis muito pegar em ti e levar-te até longe de tudo, onde pudesse ter-te só para mim. Ter-te daquele modo tão especial mas tão forçosamente necessário para o meu ser, para o meu eu, que é de seres tu junto a mim. Tudo para que pudesse observar-te vezes sem conta, tudo para que os nossos cabelos esvoaçassem sem fim, dançassem até se tocarem ao sabor do teu/meu/nosso vento, transmitindo a vontade de ser eu/te/nós e de repente transformarmos tudo num só eu. Ou num só tu, por seres tudo o que o vento te trás. Por seres tudo o que a a manhã deseja, porque o Sol quando nasce gosta de te ouvir cantar, tal como eu, mas só naquele sítio que eu e tu haveremos de encontrar. Naquele sítio onde estarás para sempre só comigo, onde os nossos cabelos se encontrarem um com o outro e se fundirem num misto de sentimentos e emoções.
Desejo-te, quero-te, devoro-te. Quero-te assim, porque esta sou eu, é assim que eu sou.

6.2.06

Orgulho pregiçoso



A vontade de fazer e de agir não está presente, ausentou-se, ficou na cama deitada, e os Homens seguem-me cada vez mais, com sua preguiça, com sua inércia.
No fundo, eles têm orgulho em ser cães que se vestem de palavras. Palavras que ficam perdidas no ar onde o eco não chega.
E deixam-se vicar, vencidos pela vida, viciando-se nos lençois do tempo, minuto a minuto, segundo a segundo, competindo, disputando a imobilidade.
Quando olham para as suas mãos vêem nelas a vontade de ir além. Mas, as rugas lebram a todo o instante que a vida não foi feita para viver!
E deixam-se morrer dia após dia, à espera de uma alma gémea. De aguém que nem sequer sabem quem é.
Talvez a história da alma gémea não seja mais do que uma mentira que se inventou para que à noite possamos descansar sem a culpa que esmaga. As mãos continuam lá, a alma continua lá, o Homem continnua lá! Porquê a vontede de reclamar quando se continua no reino da preguiça orgulhosa de si?
Eles não sabem a resposta. Ninguém sabe. Mas também ninguém a procura. E por isso mesmo não dormem, não acordam, não vivem, simplesmente deixam-se estar orgulhosamente preguiçosos. Esperam por tudo mas no fundo não esperam por nada.
O mundo é construído por nós. Detentores de respostas, de perguntas, de vida. O mundo é nosso. Peço-te que pegues comigo no cimento e nos tijolos. Pegas? Vamos levantar-nos. Depois de me espreguiçar, erguerei os braços cansados da espera para criar algo novo e belo. Porque depois da morte, não sei o que vem. "É a hora!"
E como somos os nossos Deuses, e como mandamos em nós. Vamo-nos não só erguer, vamos ter orgulho em nós enquanto pessoas activas, e só teremos de ter preguiça de ser como aqueles preguiçosos que se sentam no leme de um país. Se não for o Homem a mexer-se quem se mexerá por nós?
Digo e repito as palavras do sábio: "É a hora!"

Vindo directamente das cabeças de OrgulhO e Preguiça

25.1.06

Impaciência

Tomo um banho, longo, para ver se o tempo passa mais depressa. Seco-me. Visto o vestido preto – aquele com o decote que tanto gostas. Calço os sapatos também pretos – aqueles com os saltos acutilantes que tanto gosto. Carrego no batom, solto os caracóis. Já é de noite, ponho o xaile sobre os ombros e saio de casa a correr… “Até amanhã. Não esperem por mim!”
Aguardo, impacientemente, pelo autocarro que parece nunca mais chegar. Longos minutos depois estou à tua porta. Respiro fundo e toco à campainha. Entro e, enquanto ajeito o cabelo e verifico o batom no espelho do elevador, imagino-te atrás da porta a arranjar a roupa enquanto te perguntas porque o fazes se sabes que não vai durar nem um minuto…
Saio do elevador, tu esperas-me à porta. Apenas distingo os contornos do teu corpo na penumbra. Chego-me mais perto… “Boa noite”, e aquele sorriso… Entramos para a sala. Passo os dedos no teu cabelo enquanto te beijo. Saudade. A minha mão no teu ombro, os meus lábios no teu pescoço. Fecho os olhos, devagar. A tua barba na minha nuca, a tua mão no meu colo. Leveza. Bocas que se aproximam, línguas que se querem. Os teus dentes a arranharem o meu pescoço. Olhos que imploram, corpos que não se largam, lábios que suspiram lentamente. E nunca temos tempo de chegar ao quarto. Esta nossa impaciência…

19.1.06

Reino da Preguiça


Longe da cama, longe do pecado, do pecado que sou e que sempre serei. Vagueio pelas ruas perdido, sem saber onde estou e para onde quero ir. Tenho preguiça de perguntar ao polícia, o mais certo é ele não saber. Tenho preguiça de reflectir por um segundo e organizar o meu andar, mas vou andando.
Já em casa e perto da cama, pronto a consumir o pecado que me dá nome, a moça chama-me, tento resistir-lhe mas em vão, até na cama ficamos mas não consigo dormir. Mas o que se passa comigo? Se continuo assim sou expulso do inferno, ou pior, perco a vontade de dormir!
A moça adormece finalmente, e por azar olho para a televisão. Bolas! Está a dar aquele programa que tanto gosto. Mais uma hora acordado. O show acaba e preparo-me para dormir, mas tenho sede, vou beber um copo de água e ja venho dormir. Chego novamete à cama e a moça tinha acordado.
Mais uma vez precorremos todo o limiar da indecência, e eu ainda sem dormir.
Quem é o pecado mor? Aguém me diga por favor, estou sem dormir à muitas horas e ainda sou despedido!
Sinto-me deveras cansado, mas acho estranho que cada vez que a moça acorda perco todo o meu sono. Uma condição estranha para a preguiça mor, mas tenho de aceitar esta nova forma de vida, ou talvez não.
Finalmente a moça adormece mais profundamente e eu nem acendo a televisão, e tenho o copo de água na mesa de cabeceira. Fecho os olhos por um segundo e toca o telefone. Deixo-o tocar uma, duas e três vezes, tive de atender, era engano.
Parece-me que existem muitos preguiçosos neste país, que me querem destronar e em tempos eu chegava para eles, mas está a tornar-se muito difícil. Quero ser a preguiça mor, mas outras tentações parecem ser mais fortes. Hei-de lutar por este título, ou por outras palavras, hei-de dormir por este título.
A preguiça está aqui para dormir por todos vós...




SLeeP iN HeaVeNLy PeaCe

9.1.06


Vi-te passar. Não fui atrás. Quando me tocaste, dei um passo atrás! Será que tu ainda estás aí? À minha espera! Eu queria tanto ficar...queria dizer-te todas as palavras doces que se enrolam na garganta e, que ainda assim continuam lá à espera que a tua língua lhes dê libertação. Queria tanto ficar... Mas, ele fala mais alto do que eu. Quando te quero estender a mão e pedir “fica”...oh...o meu corpo desmaia de palidez e sinto-me sufocar e sinto-me emudecer. Será que ainda sabes que te amo? Será que o meu olhar ainda te transmite alguma mensagem que navega perdida numa garrafa pelo mar fora?...Queria tanto ficar.... Eu tento, não penses que não tento mas, não consigo. Ainda com a cabeça junto a almofada e de olhos fechados, os meus pensamentos voam e trazem nas suas asas de papel o desejo de te bater à porta e sorrir-te um olá. Sim, eu podia ser a pele macia que te acaricia quando adormeces mas, ele estrangula-me a todo o momento...eu luto, não penses que não luto mas, todos os dias perco a guerra...se ao menos conseguisses ler-me e salvar-me...Queria tanto ficar, tanto, queria tanto....mas sempre que te olho e que os meus lábios se projectam para dizer “eu amo-te”, é então, que o meu deus vem e prende- me, amarra- me com as suas cordas feitas de palavras duras e cruéis... Orgulho é o meu deus e tu continuas a ser apenas o mortal que eu amo...

4.1.06

Posso ser sou eu!

O que mudou? Nada. De ti não mudou nada, o teu cheiro permanece entranhado na minha roupa. Continuas a circular nas minhas veias, como um poderoso veneno mortal. Algo que bebi, juntamente com a carne do teu corpo que saboreei pedaço a pedaço. Entre sonhos e verdades perco-me neste meu pecado, com a sensação de que não me consigo autosatisfazer. Tenho vontade de pecar algo para além de mim. Não, tenho vontade de pecar em toda a minha plenitude!
Olho para os teus pedaços caídos no chão. "Não, nunca precisarei de ti nem nunca me farás falta alguma! Ah, como gostava de ter tudo o que não tenho de ti! Quero, quero tudo só para mim, e não me interessa de que modo mo darás, arrancar-te-ei tudo o que tens à força! Conseguirei mostrar-te ao mundo como quem mostra um troféu e que depois será deitado fora para nunca mais ter de te carregar aos ombros!"
Rio-me loucamente dos teus pedaços: AH AH AH! Não, o resto não me interessa! O meu corpo sacia-se de ti!

14.12.05

...cuidados faciais...

Na cara duas sardas, umas tranças de miúda traquina e lá vai ela pela rua a saltitar como se fosse ao bosque ter com a avózinha. Não traz meias pretas, são antes vermelhas e quer ser senhora do seu nariz. Chamam-lhe lua e eu gosto disso. Não quero saber a sua idade nem muito menos de onde vem. Não queremos que nos contes nada. Não fomos os nomes que nos dão, já nascemos com um nome, uma identidade para muitos desconhecida. Sabemos voar quando nascemos e depois desaprendemos e tornamo-nos inúteis passeantes por terras de aquem e de além mar. Ninguém nos teme porque somos insuspeitamente ruins na nossa ira. Não assustamos o mundo nem mesmo se gritarmos bem alto do fundo dos nossos pulmões.
Há quem diga que somos maiores porque sabemos gritar, sabemos sonhar. Tudo verdade. Ponto final. Muda de parágrafo e conta-me o teu nome.
Será que a ira tem o rosto de uma miúda sardenta com o dente da frente partido?